segunda-feira, abril 24, 2006

O Suave Milagre 115 - Passageiro frequente

"Só hoje senti
que o rumo a seguir
levava pra longe
senti que este chão
já não tinha espaço
pra tudo o que foge
não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar"


Por razões que não interessam agora, desde cedo aprendi que não devem "pesar" nas relações os kms que separam as pessoas e que não é verdadeiramente a distância que as separa. Podemos achar que sim e imputar-lhe as culpas, mas não é ela que separa as pessoas, são outras coisas, que também não interessam agora.

Comecei por fazer mais de 5.000 kms para estar com a minha mãe na Páscoa, no Natal ou nas férias de Verão. Depois, encontrava-me com a minha avó, tios e primo do lado materno e então o percurso descia para metade: eram 2.500 kms feitos no sentido oposto. Ia acumulando milhas e milhas em cada uma das férias escolares. A parte boa é que comecei muito cedo a viajar de avião sozinha (sem a mínima oportunidade de ter medo), a frequentar aeroportos, a fazer check-ins e escalas, ainda que tudo isto entregue aos cuidados profissionais do pessoal de bordo e com os documentos e a passagem pendurados num saquinho ao pescoço. Aprendi a confiar em estranhos, a dar-lhes a mão e a não ter medo de estar longe dos pais, acreditando neles quando me diziam que do outro lado haveria uma cara familiar à minha espera. Aprendi também que quando se quer chorar vai-se à casa de banho, como qualquer outra necessidade física.

Passaram-se os anos e por minha vontade, minha tão grande vontade, aumentei os kms que me separavam do colo do pai e da sabedoria da mãe F. Foi à custa dessa separação que aprendi que não se fala de saudade, aceita-se a sua presença, arranjamos-lhe espaço, deixamos que se acomode mas não falamos nela, não lhe damos importância, em nenhuma das cartas, em nenhum dos telefonemas. Aprendi ainda que não faz mal voltar atrás no caminho.

Na altura da faculdade, por causa da minha média de acesso fui estudar para fora de Lisboa e o que na altura me pareceu tremendamente injusto hoje reconheço como um desígnio divino. Nesses anos estabeleceu-se uma rotina de viagem: de quinze em quinze dias comprava-se o bilhete, fazia-se o saco, arranjava-se o farnel e faziam-se quase 300 kms para Sul. Uns dias depois faziam-se os mesmos kms para Norte. Ao longo dessas viagens fui "passando" e "chumbando", vi começar e terminar romances, ouvi e fiz confidências a companheiros de viagem, esperei e fui esperada. Aqui, aprendi a relativizar as coisas e aprendi que por mais intensa que seja a emoção ela eventualmente começará a diminuir. Aprendi que tudo passa, às vezes no tempo que demora uma viagem até Lisboa.

Depois, quando já estava a trabalhar e achava que vestia o amor no número certo, que ele me assentava como uma luva sem ginásticas nem esforços, por razões que mais uma vez não interessam voltei ao esquema "bilhete-saco-farnel". De quinze em quinze dias faço cerca de 400 Kms na ida e mais 400 no regresso, e pelo meio vou mantendo vivo algo que quero infinito enquanto dure, como dizia o poeta. São em média 1.600 kms por mês, dos quais parece-me que ainda não retirei a lição principal. O que devo aprender agora para poder parar, ou simplesmente para passar ao percurso seguinte?

Aguardo o dia em que este ciclo se fecha e que dou lugar a outro na estrada.
Até lá, sobra-me todo o tempo das viagens para ler, para pensar na vida (na minha e na dos outros), para fazer planos, para desempoeirar lembranças e até para escrever posts como este.
Até lá, continuo à espera de chegar ao destino.

"e hoje deixei
de tentar erguer
os planos de sempre
aqueles que são
pra outro amanhã
que há-de ser diferente
não quero levar o que dei
talvez nem sequer o que é meu
é que hoje parece bastar
um pouco de céu."


Um pouco de céu - Mafalda Veiga

sexta-feira, abril 21, 2006

O Suave Milagre 114 - Para ele, que ainda não veio

Ontem dei por mim a imaginar-te, a pensar em ti e a sentir-te como se já existisses. Dentro da minha cabeça ouvi-te a voz e acalmei-te as ânsias de chegada. Fiz-te uma promessa. Que virias em breve, que não esperaria mais, que te ia querer muito, que ia tratar de tudo e estabelecer prazos. Fiz-me uma promessa. Que seriamos felizes.


"Para tu amor lo tengo todo
Desde mi sangre hasta la esencia de mi ser
Y para tu amor que es mi tesoro
Tengo mi vida toda entera a tus pies

Y tengo también
Un corazón que se muere por dar amor
Y que no conoce el fin
Un corazón que late por vos

Para tu amor no hay despedidas
Para tu amor yo solo tengo eternidad
Y para tu amor que me ilumina
Tengo una luna, un arco iris y un clavel

Y tengo también
Un corazón que se muere por dar amor
Y que no conoce el fin
Un corazón que late por vos

Por eso yo te quiero tanto que no sé como explicar
Lo que siento
Yo te quiero porque tu dolor es mi dolor
Y no hay dudas
Yo te quiero con el alma y con el corazón
Te venero
Hoy y siempre gracias yo te doy a ti mi amor
Por existir

Para tu amor lo tengo todo
lo tengo todo y lo que no tengo también
Lo conseguiré
para tu amor que es mi tesoro
Tengo mi vida toda entera a tus pies

Y tengo también
Un corazón que se muere por dar amor
Y que no conoce el fin
Un corazón que late por vos

Por eso yo te quiero tanto que no sé como explicar
Lo que siento
Yo te quiero porque tu dolor es mi dolor
Y no hay dudas
Yo te quiero con el alma y con el corazón
Te venero
Hoy y siempre gracias yo te doy a ti mi amor"

Para Tu Amor - Juanes

terça-feira, abril 18, 2006

Singularidades de uma rapariga loura 114 - South Park

Ó para mim no South Park...

E seria assim o meu namoradinho da escola primária...

Só vos posso adiantar que daríamos uns bons episódios.

Cliquem aqui para criarem os vossos.

Vá lá, Lolita, pelo menos tu eu sei que me entendes...

quarta-feira, abril 12, 2006

O Suave Milagre 113 - King

O amor da tua vida será aquele que adorar o cheiro único da tua pele quando acabas de sair do banho. Isso não quer dizer que fiquem juntos ou que sejam felizes, significa apenas que vais identificar o amor da tua vida ainda no tempo que partilharem e não tarde demais.
Eu, a seguir, coroei-o.


"Your love is king,
Crown you in my heart.
Your love is king.
You're the ruler of my heart.
Your kisses ring,
Round and round and round my head.
Touching the very part of me.
It's making my soul sing.
I'm crying out for more.
Your love is king.

(...)

This is no blind faith
This is no sad and sorry dream.
This is no blind faith..."

"Your Love Is King" na versão de Will Young (Bridget Jones - The Edge Of Reason Soundtrack)

terça-feira, abril 11, 2006

Singularidades de uma rapariga loura 113 - Humor de mãe

mamãe says:
Oi
Roxanne says:
Oiiiiiiiiiiiiii
mamãe says:
Quero receber parabéns, snif,snif,snif...
mamãe says:
tô quase sex...sexagenária!

sexta-feira, abril 07, 2006

Singularidades de uma rapariga loura 112 - Recessiva, eu?

Vejam só o que vem por aí e que a minha sempre atenta S. encontrou...
Fiquei tão contente com a notícia desta publicação que andei pelo menos umas horas em estado catatónico. Ainda mais porque li recentemente uma notícia que dizia que as loiras iriam rarear (ou mesmo desaparecer) daqui a umas décadas por serem determinadas por um gene recessivo.
Nem sabia o Eça que nós seriamos cada vez mais singulares...

O Suave Milagre 112 - Online


Abro uma janela, falo com a minha mãe no msn e quase sinto que vou encontrá-la em casa no fim do dia, com café e bolo de milho. Depois falo com a minha madrinha, também no msn, pergunto por todas as saúdes, os trabalhos, as escolas, pergunto pelo sol, pelo mar, se continua da mesma cor verde que só existe lá do outro lado... Mar azul? Bahhhhhhhh, mar é verde!

Mais umas janelas depois e fico a saber novidades da prima que estuda em Londres; do primo que mora uns kms mais a norte na mesma ilha; converso com a prima do Brasil, cheia de ideias fixas, que agora está na Holanda; com a prima da Alemanha que foi para a África do Sul e falo de cinema com o primo que mora em São Paulo. E há sempre assunto no msn com a prima que está mesmo aqui ao lado, no centro de Lisboa, e ainda com os priminhos M. e A. quando chegam da escola, mas só depois de fazerem os trabalhos de casa...

É com os laços frágeis de smiles e emails, tecidos entre fusos horários, que me vou relacionando com a minha família.

E a minha família é "um lugar estranho", onde periodicamente vão descansando corações migratórios, incluindo o meu.

quinta-feira, abril 06, 2006

O Suave Milagre 111 - Excedente

Devo ter sido muito amada, intensamente amada, numa outra vida.
Tanto que ainda me sobrou segurança para gastar nesta.
Tanto que ainda me sinto especial nesta.

terça-feira, abril 04, 2006

Singularidades de uma rapariga loura 111 - Ao sol


Está a chegar a altura do ano em que o sol me torna uma pessoa melhor, em que o calor me descongela o coração e me relaxa as tensões do corpo. Em que digo "bom-dia" mais vezes e com gosto, em que faço caretas às crianças e sorrio aos "loucos de Lisboa", em que sou mais tolerante, mais optimista e mais generosa.
Está a chegar a altura do ano em que sou mais eu. E sou melhor eu.